Prova de solidariedade nas férias

11 mar

A ótima surpresa de ser convocada para trabalhar no Cidades e Soluções veio com uma bomba: férias em janeiro. Janeiro? O que vou fazer? Sem companhia para viajar ou disposição de planejar qualquer coisa na alta temporada, me agarrei à primeira bóia que apareceu: comprei um pacote para correr a meia-maratona da Disney. Fora a minha melhor amiga e a minha mãe, que não contam, apenas os corredores de rua e o meu sobrinho de 15 anos — que havia acabado de chegar de lá — não debocharam da ideia. Como assim? Um programa desses sem criança? Gastar uma passagem internacional para visitar uma cidade que eu já conhecia e que, de certa forma, me oprime pela compulsão em todos os sentidos. Sem a menor chance de exercitar a cabeça ou aquecer a alma.

O que me movia era a corredora que descobri dentro de mim depois dos 30. Cada prova funciona como um balanço. Como estava na última corrida? Em quanto tempo fechei o primeiro quilômetro? A hérnia de disco ainda incomoda? A vida afetiva engordou ou encolheu? E as conquistas profissionais? Seria bom repetir essa contabilidade em terras estrangeiras, ao lado de gente de todo o mundo. E foi mesmo. Mais do que isso, naquele país onde desenvolvimento está diretamente ligado a consumo monumental de bens e energia, encontrei exemplos de cidadania que me motivaram a tomar o tempo precioso dos leitores deste blog com um relato do tipo “minhas férias”.

Assim que retirei o kit da corrida, encontrei uma caneta pra escrever em tecido no meio do pacote tradicional de barras de cereal, isotônicos e gel de carboidrato. Imaginei que fosse apenas mais um brinde de mais um patrocinador entre tantos. A explicação veio depois dos primeiros quilômetros, quando, finalmente, clareou e pude ver que boa parte dos participantes corria por uma causa e fazia questão de escrever a motivação na camiseta. Havia aqueles que corriam contra a guerra do Iraque. Outros por solidariedade aos soldados. Uma mulher com corpão de atleta festejava os três anos de sobrevivência ao câncer. Pais com mensagens para filhos doentes. Protestos contra o aquecimento global. E muitas frases do tipo: corro para celebrar a vida.

Enquanto vencia meus obstáculos internos para completar os 21 km a surpreendentes -4º centígrados, as frases se sucediam e só aumentava a minha admiração por essas pessoas  — esses corredores de longo curso — que acreditam no poder de uma mensagem, num gesto que pode fazer diferença. Senti um constrangimento  por jamais ter tido coragem de lutar por uma causa individualmente. De levar fé em mim. Eu me lembrava do silêncio que sucedeu a execução do hino nacional americano, instantes antes da largada. Ainda escuro, num frio de rachar, ouvi a multidão se calar depois de cantar que saudaria a bandeira do país logo nos primeiros raios da alvorada.

Foi exatamente o que ele fizeram. Não sei se por patriotismo ou justa auto-estima, aquelas pessoas se sentiam orgulhosas e indispensáveis correndo por suas causas e atuando como voluntárias ao longo do percurso gelado. Nos postos de abastecimento, quando aqui no Brasil a gente costuma ver o desperdício de copos de plástico de água, voluntários de todas as idades entregavam nas mãos de cada atleta copos de papel de festa infantil com pequenos goles de água. Pelo menos para mim, a dose estava sempre na medida exata da minha sede. Nunca completei uma corrida tão bem hidratada. Difícil também determinar a faixa etária dos grupos que nos incentivavam a continuar. Algumas bandas de música. Turmas de estudante que faziam questão de nos tocar.

Eu me perguntava por que aquela gente havia acordado cedo para enfrentar chuva só para me dizer “good job”, “you look great”. Ao cruzar a linha de chegada, idosos punham as medalhas no nosso pescoço e nos agasalhavam com um abrigo improvisado. Com as mãos e os pés congelados, tive dificuldade para desacelerar. Meu tempo não foi lá grande coisa. Vou jurar que foi efeito da endorfina, mesmo assim vou confessar que a participação dos voluntários me levou às lágrimas. Assim como o senso de cidadania e o cuidado para evitar o desperdício. Eu já sabia que correr não era uma atividade solitária. A vitória, desta vez, foi descobrir, ao final desses 21 quilômetros, que a corrida pode ser uma  prova de solidariedade.

Autor: Angélica Brum

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