Emoção no adeus a Armando Nogueira

30 mar

Jornalista é enterrado no Rio de Janeiro sob aplausos e homenagens

Thiago Lavinas Rio de Janeiro

Sob aplausos, emoção e homenagens, Armando Nogueira foi enterrado, nesta terça-feira, no cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O adeus a um dos camisas 10 do jornalismo brasileiro aconteceu às 12h35m. Centenas de amigos e fãs foram confortar os familiares e cantaram o hino do Botafogo.

André Durão /GLOBOESPORTE.COM

Amigos e fãs foram ao Cemitério São João Batista para o adeus a Armando Nogueira

– Muito obrigado por esse carinho e solidariedade de todos vocês neste momento difícil. Ele está levando isso no coração dele. Ele continua entre nós – disse o único filho de Armando Nogueira, Armando Augusto Magalhães Nogueira, mais conhecido como Manduca, que tem 55 anos e também é jornalista.

– Nós temos que agradecer muito a ele. A sua maior virtude era a amizade. Ele tinha amor no coração. Obrigado, Armando! – continuou o irmão mais velho do jornalista, Wilson Nogueira.

– Esse choro está cheio de alegria – completou.

Aos 83 anos, Armando Nogueira morreu na manhã de segunda-feira, em sua casa, na Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro. Há dois anos, ele lutava contra um câncer no cérebro – que lhe roubou primeiro a capacidade de falar e escrever, duas das atividades que mais prezava.

O corpo de Armando Nogueira saiu do Maracanã, onde foi velado na Tribuna de Honra, por volta das 11h30m coberto com as bandeiras do Botafogo e do Acre, estado em que ele nasceu. Curiosamente, a última vez que Armando Nogueira visitou o Maracanã foi exatamente há dois anos. Ele esteve no estádio no dia 30 de março de 2008 para a inauguração do Espaço Armando Nogueira, uma sala que homenageia cronistas esportivos que fica na entrada da tribuna de imprensa.
No cemitério, centenas de fãs e personalidades aguardavam a chegada do corpo. Um dos admiradores segurava um cartaz com a frase: “Armando Nogueira foi o Pelé do jornalismo esportivo brasileiro”. No céu, quatro ultraveles homenageavam o jornalista. Armando Nogueira foi o fundador do clube carioca da modalidade e era apaixonado pela aviação.

Muito emocionado, Wilson Nogueira, carregava no bolso fotos do irmão. Letícia, neta do jornalista, vestia a camisa do Botafogo. Joel Santana, Lucio Flavio, Lídio Toledo, Bebeto de Freitas, Fátima Bernardes, William Bonner, Ziraldo, Maurício Assumpção foram alguns que apareceram para se despedir de Armando Nogueira.

– Em 2007, o Armando foi se tratar no Botafogo e eu estava me recuperando de uma lesão. Conversamos muito nesta época. Ele foi uma pessoa incrível, um cara diferenciado. Por isso todo esse carinho que a gente pode acompanhar – disse Lucio Flavio.

Torcedor apaixonado pelo Botafogo e pelo esporte em geral, Armando Nogueira acompanhou todas as Copas do Mundo desde 1950. Foram 15 mundiais no total. Ele também participou da cobertura dos Jogos Olímpicos a partir de 1980. Uma das musas inspiradoras de Armando Nogueira, “Magic” Paula revelou que vai escolher uma crônica de Armando Nogueira para colocar em um quadro em sua casa.

– Quando fui visitá-lo pela primeira vez em sua casa, eu entrei na sala e vi que havia um quadro de um artista que era uma imagem minha jogando basquete. Foi muito emocionante para mim. Ele era um cara diferenciado, que deixou um legado para todos nós. Ele escrevia crônicas lindas que agora eu vou colocar em um quadro. Posso definir Armando Nogueira em três palavras: simplicidade, gentileza e elegância – disse.

Luto oficial no Rio de Janeiro e no Acre

Caixão com bandeiras do Botafogo e do Acre

O governador do Rio, Sérgio Cabral, e o prefeito, Eduardo Paes, decretaram luto oficial de três dias pela morte do ex-diretor da Central Globo de Jornalismo. No Acre, onde o jornalista nasceu, o Governo do Estado divulgou nota de pesar pela sua morte e também adotou o luto oficial. Por três dias, as bandeiras dos estados vão ficar a meio mastro nas repartições públicas.

O estádio do Maracanã ficou iluminado durante a noite em homenagem ao jornalista. A secretária estadual de Esportes e Lazer do Rio, Márcia Lins, disse que vai inaugurar no estádio a “Academia de Ideias Armando Nogueira”, próxima ao portão 18, no hall dos elevadores. Será um espaço reservado ao trabalho do jornalista, com seus livros e crônicas. A tribuna de imprensa do Maracanã já leva o nome de Armando Nogueira.

Para o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, Armando Nogueira mudou a história do telejornalismo brasileiro e deixa um legado para todos os brasileiros. O jornalista foi um dos criadores do Jornal Nacional.

– Ele construiu toda uma linguagem da televisão com um rigor fantástico na precisão da informação e na qualidade do texto. Armando deixa para nós mais do que uma lembrança, uma inspiração – disse João Roberto Marinho.

Ausente do país, o presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu Marinho, divulgou nota sobre o falecimento do jornalista:

“Quando passei a trabalhar mais de perto com Armando Nogueira, eu estava na casa dos trinta e ele na casa dos cinquenta, mas nunca houve entre nós uma distância de gerações. Armando sempre foi jovem, e creio que foi essa força juvenil que o equipou para não somente ajudar a criar o telejornalismo brasileiro, mas para fazê-lo num dos períodos mais difíceis de nossa história, em pleno regime militar, com censores nos vigiando o tempo inteiro. Fui testemunha de como ele, mesmo sob enorme pressão, lutava para manter o ânimo entre os jornalistas, testando cotidianamente os limites, não permitindo que a autocensura
se tornasse uma prática. Na ditadura ou na democracia, porém, foi sempre rigoroso com o que ia ao ar, fosse nas coberturas históricas, fosse no dia a dia: era implacável na busca pela correção, pelo equilíbrio e, uma qualidade muito dele, pelo texto perfeito. Deixou-nos isso como norma. Era um prazer tê-lo como colaborador, mas era um prazer ainda maior ser seu amigo e dividir com ele algumas paixões, como os voos de ultraleve, que praticou, como um jovem, até
os 80. Hoje, eu, como todos os que tiveram a alegria de conviver com Armando, fico com essa lição: é possível ser sério, disciplinado, rigoroso, sem nunca deixar para trás o frescor da juventude”.

O jornalista e escritor Sérgio Cabral, pai do governador do Rio, conheceu Armando Nogueira em 1959, no Jornal do Brasil. Os dois viraram grandes amigos.

– É uma grande perda. Não era a toa que Armando Nogueira era chamado
de Machado de Assis da crônica esportiva.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também divulgou nota de pesar pela morte do jornalista:

“Armando Nogueira foi um dos nomes de maior destaque da história do jornalismo brasileiro, especialmente na televisão e na crônica esportiva. Tinha talento de sobra que lhe permitiu atuar em diferentes mídias, sempre com o mesmo brilho e a mesma preocupação com a qualidade do texto e da informação. Neste momento de perda, quero externar meu sentimento de pesar a seus familiares, amigos, colegas da imprensa e admiradores”.

A CBF determinou um minuto de silêncio nos jogos da Copa do Brasil, que vão acontecer no meio da semana. A carreira do jornalista inspirou no ano passado a criação do troféu que o homenageia – uma parceria do Sportv com o GLOBOESPORTE.COM – que premia o melhor jogador de cada posição no Campeonato Brasileiro.

Armando Nogueira escreveu textos para o filme “Pelé Eterno” (2004) e
deixou um legado de dez livros publicados, todos sobre esporte: “Drama e Glória dos Bicampeões” (em parceria com Araújo Neto); “Na Grande Área”; “Bola na Rede”; “O Homem e a Bola”; “Bola de Cristal”; “O Vôo das Gazelas”; “A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar” (em parceria com Jô Soares e Roberto Muylaert), “O Canto dos Meus Amores”; “A Chama que não se Apaga”; e “A Ginga e o Jogo”.

De Xapuri para o Rio

Armando nasceu no dia 14 de janeiro de 1927, em Xapuri, no Acre. Mudou-se para o Rio de Janeiro com 17 anos, formou-se em Direito e começou a trabalhar como jornalista nos anos 50, no finado “Diário Carioca”. Foi repórter, redator e colunista. Trabalhou na “Revista Manchete”, em “O Cruzeiro” (de 1957 a 1959) e no “Jornal do Brasil” – onde assinou a coluna “Na Grande Área” por 12 anos. De 1966 a 1990, trabalhou na TV Globo, sendo diretor da Divisão de Esportes e depois diretor de jornalismo, comandando o Jornal Nacional. Em 1992, integrou
a equipe da TV Bandeirantes nas Olimpíadas de Barcelona. Nos anos 2000, passou a integrar a equipe do SporTV, onde participava de mesas-redondas e tinha o programa “Papo com Armando Nogueira”. Na internet, teve um blog no GLOBOESPORTE.COM, o Blog do Armando Nogueira, em 2006 e 2007. Na imprensa escrita, o jornalista trabalhou por último no diário Lance!”, onde tinha uma coluna. Seu estilo doce e anedótico, que sempre buscava olhar para o esporte com poesia, influenciou várias gerações de torcedores e jornalistas.

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