A Bondade

3 abr

As filas estavam longas e o supermercado superlotado de pessoas ávidas para comprarem seus presentes de Páscoa, principalmente, os ovos. Sexta-feira com o tempo nublado e chuva miúda mas persistente.

Fomos, eu e minha mulher, comprar dois ovos para as netas, já que havíamos comprado os dos netos e dos afilhados, anteriormente.

Enfrentar aquelas filas ? Tive vontade de sugerir à esposa que fôssemos embora e voltassemos mais tarde. Ao falar com uma senhora sobre a possibilidade de pagar aqueles dois objetos à sua frente, ouvi um jovem dizer: “o senhor não quer pagar agora, na minha frente ?”.

Olhei para o jovem, agradeci e pensei: ”não estamos tão mal assim, ainda há esperança“. Conversei com ele e sua mãe que o acompanhava e enquanto esperava a moça do caixa operacionalizar o pagamento descobri que era uma família de classe média e que ele fôra educado ”à moda antiga“.

Fazer o bem ! Ao chegar em casa resolvi escrever esta matéria. Não sabia por onde começar. Dualidade, bem versus mal ? Aprofundar conceitos sobre os estudos teológicos, psicológicos, psicanalíticos, psiquiátricos, sociais, culturais, antropológicos, etc. ?

Atualmente, há quase um modismo (ou um modismo) em que pessoas ” gostam ” de fazer o bem. Elas compram camisetas de campanhas; compram objetos de consumo, principalmente, com sêlo verde; participam de eventos cujos recursos arrecadados são destinados às instituições oficiais ou não, que praticam atividades em benefício do ” bem comum “.

Todavia, o que sabemos sobre a efetividade das ações dessas instituições ? O que se faz, realmente, com os recursos arrecadados, depois da nossa ajuda ? Podemos, então, indagar se essa nossa ajuda não é superficial ?

Será que estamos, verdadeiramente, comprometidos com a necessidade de mudanças profundas nas estruturas políticas, econômicas, sociais ?

O que, então, tem tudo isso a ver com o gesto daquele rapaz do supermercado?  Ora, no meu entendimento, tem tudo a ver.

Imaginemos, assim, que, de repente, tirássemos as nossas capas, nossas vendas e começássemos a agir com autenticidade (sem agressividade, é bom não esquecer), sensatez, equilíbrio; sem arrogância, prepotência, ” sem fazer o jogo dos poderosos “.

Sem ações paliativas que, até, encobrem o valor dessas atitudes porquanto não penetram e, por conseguinte, não modificam as causas primárias da injustiça.

Fazer o bem de fora para dentro ? Pelas circunstâncias do momento ? Por quê dá visibilidade através da imprensa ?

Doar alimentos, por exemplo, a pessoas no mais alto estado de desnutrição é desumano, pois, sabemos que essas pessoas necessitam, na verdade, de alimentos líquidos com vitaminas e sais minerais selecionados por alguém capacitado para essa tarefa.

Banalizar o bem ? Dar bom dia como mera formalidade; escutar o outro por puro interesse; cumprimentar de forma lacônica; estar perto com segundas intenções.

Dar sem querer ditar as regras. Fazer o bem por sentir-se magnânimo, altruísta, caridoso.

Como diz a psicoterapeuta Amnéris Marone, professora na Faculdade de Antropologia da Unicamp : ” a bondade consciente é uma conquista interna, espiritual. Ela só pode ser exercida plenamente quando não encobre desejos de manipulação. O exercício da bondade tambem não pode ser usado para suprir nossas próprias carências de afeto, ou as carências de afeto de outras pessoas. Uma pessoa só é capaz de praticar a bondade real depois que conhece a si mesmo e aceita seu lado mais sombrio, sua própria agressividade e destrutividade “.

Uma pessoa que pratica o bem não precisa ser vista como “santa”, “bondosa”  “justa”, mas que, mesmo com suas dificuldades pessoais, assim procede sem vaidade, sem arrogância. “Dar sem querer receber”.

Desde nossa infância, se tivemos bons professores (nossos pais, principalmente), aprendemos a ser tolerantes com o mal, com as falhas de outras pessoas e não projetamos nossos erros e dificuldades nas outras pessoas.

Fazer o bem é dar amor.

Fonte: (Laerte Maués) http://www.laertemaues.wordpress.com – Blog da Luz

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