Clóvis, o aranha negra e a toalha vermelha

8 abr

Posted by: Carlos Zamith    in Astros da bola, Atlético Rio Negro Clube

Começou a jogar bola como zagueiro do Nazaré, um time suburbano organizado pela rapaziada residente no final da Avenida Joaquim Nabuco, para os mais antigos, do “Alto de Nazaré”, término da linha de bonde, cuja placa de fundo amarelo tinha o nome de Nazaré em vermelho.

Clovis-RNClovis Amaral Machado, nasceu na cidade de Parintins, a 20 de outubro de 1943 e veio para Manaus ainda garoto e aqui começou a se interessar pela bola.

Em 1959 já estava no time juvenil do Auto Esporte comandado por Cláudio Coelho. Num dia de treino faltou um goleiro e Clovis tomou conta do posto para nunca mais sair, deixando longe a idéia de ser zagueiro. Suas atuações foram acima do esperado para um garoto que tinha realmente boa estatura para jogar na zaga.

Em 1961, com 18 anos, chegou ao time titular do Auto e fez seu último jogo com essa camisa, em 22-12-1962, contra o Rio Negro, no Parque, perdendo por 3 a 1.

JOGO SUSPENSO

Esta foi partida suspensa após o terceiro gol rionegrino assinalado por Thomaz. É que alguns torcedores do Auto Esporte invadiram o campo insatisfeitos com a marcação do árbitro José Pereira Serra que, sem condições, preferiu suspender o jogo aos dez minutos do segundo tempo. Quatro dias depois o jogo continuou com Dorval Medeiros no apito e terminou sem alteração no marcador.

NO RIO NEGRO

Nosso futebol ainda era amador. Clovis trocou o Auto Esporte pelo Rio Negro em 1963, mas teve que cumprir um estágio exigido pela lei de transferência. Nesse mesmo ano o Rio Negro empreendeu uma temporada em gramados do Pará e do Maranhão e Clovis foi incorporado à delegação que levava mais dois goleiros: Pedro Brasil e Chicão. Com a saída de ambos, Clovis passou a titular até 1970, quando teve uma rápida passagem pela Rodoviária, voltando ao ninho antigo em 1973, perdendo a posição para o carioca Carlos Henrique, já no Segundo Turno do campeonato. Depois, o Rio Negro contratou outro carioca, o Borrachinha, para disputar o Copão e Clovis decidiu parar.

Clóvis 1969A TOALHA VERMELHA

Na sua fase áurea no Rio Negro, ficou famoso, não só pelas defesas sensacionais, como pelo uso de uma toalha vermelha nos dias de jogos contra o Nacional. Ele contou como surgiu essa história:

”Tudo começou por acaso. Naquele tempo os goleiros não usavam luvas. Num clássico Rio-Nal, o gramado do campo do Parque Amazonense estava escorregadio e eu precisava enxugar as mãos. O técnico Osvaldinho (ex-jogador do América do Rio, e que atuou também em Portugal), deu-me uma toalha vermelha e eu só sei que nesse dia não tomei nenhum gol. Depois, em todos os jogos contra o Nacional, eu levava a minha toalhinha vermelha que sem me deu muita sorte”.

Durante um dos clássicos com o Nacional, na Colina, Clovis recorda que o jogo foi assistido pelo saudoso comentarista João Saldanha, que não economizou elogios à sua atuação, coroada com uma grande vitória.

Clovis sempre gostou de vestir uniforme preto nos jogos de seu time e por isso alguns locutores, especialmente Carlos Carvalho, da Rádio Difusora, deixavam de lado o Clovis para chamá-lo de “O Aranha Negra”.

HOMENAGEM

Depois de nove anos sem jogar oficialmente, embora participando de peladas nos finais de semana, Clovis foi convidado vestir camisa do Rio Negro que lhe prestaria uma homenagem. Era o mês de junho de 1982, dia de jogo contra o Bangu, do Rio, no estádio da Colina. Tomou conta o espetáculo, praticando defesas de vulto e por isso merecendo os aplausos da grande platéia. Jogou até aos seis minutos do tempo final quando deu a “volta olímpica” muito aplaudido pela torcida.

O jogo terminou empatado, em 0×0, arbitragem de Rosquilde Serra, que também fazia suas despedidas dos gramados.

Rio Negro:- Clovis (Carlinhos), Jair, Marcão, Darinta (Renato) e Toninho Pinochio (Bosco); Dalmo, Adãozinho e Pedrinho (Val); Zelito (Charlgton), Humberto (Índio) e Berg.

Bangu – Tião, Toinho (Júlio), Lauro, Moisés e Marco Antônio; Mococa (Índio), Lira (Renato) e Rubens Feijão; Mirandinha, Wagner e Wilmar (Marcelino).

Clovis 2006O futebol nada deu ao grande goleiro, nem mesmo um emprego, o que era comum no amadorismo.

Felizmente em 2006, foi reconhecido e passou a ser funcionário do Rio Negro. Clovis (foto 2006), um representante comercial e vendedor autônomo, caminhava diariamente pela cidade em busca de sua sobrevivência.

Chegou a participar de peladas com os amigos jogadores, mostrando um pouco do grande goleiro que foi, elástico, arrojado, voador com defesas milagrosas até, sem deixar de ser vítima de alguns “frangos fantasmas” que passam pela vida todos os que guardam essa ingrata posição, que nem grama nasce no local em que pisam.

Clóvis voando
Num jogo na Colina (1969), Clovis em vôo espetacular.

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