Loco por Futebol

9 mar

Loco por Futebol
Jornal ‘O Goool!’, informe oficial do Sindicato dos Atletas de Futebol do Rio de Janeiro. Acessível em http://www.saferj.com.br/

O que vem a sua mente quando você pensa em Sebastián Abreu? O que vem a sua mente quando você vê “Loco” Abreu em campo? As palavras “louco”, “maluco”, “doido” e “cavadinha” devem estar entre as primeiras que você pensa. Esse bate-papo ajuda você a conhecer um pouco mais sobre essa pessoa de personalidade forte e o jogador corajoso que carrega uma legião de fãs por onde passa.

O jornalista “Loco” Abreu adora assistir futebol, sonha em disputar a Copa de 2014 no Maracanã e quer ser técnico quando encerrar a carreira.

Como começou a carreira de atleta de futebol?

Comecei jogando na rua apenas pelo prazer de jogar bola. Como eu morava numa comunidade muito humilde jogava com uma bola de pano e os pinos eram usados para demarcar a posição das balizas. Eu e mais uns sete ou oito amigos nos reuníamos e passávamos o tempo quase todo atrás da bola.

Como foi a sua trajetória no futebol? Como foi até chegar ao Nacional do Uruguai, time do seu coração?

Iniciei a carreira no Defensor Sporting, também do Uruguai, depois passei pelo Deportivo La Coruña, da Espanha, joguei no México, na Argentina e só depois disso tudo que cheguei ao Nacional, em 2001. Se você não é da capital, se nasceu e cresceu no interior é muito complicado ganhar uma chance entre os profissionais de um time de Montevidéu. Foram poucos jogadores que conseguiram sair do interior e ir direto para um grande time da capital.

A superstição do número 13 veio com você desde o início da carreira? Sempre jogou com o seu número da sorte?

Sim, sempre gostei da camisa 13, mas não pude jogar sempre com ela. Na Argentina tinha uma regra que só permitia o uso da numeração tradicional de 1 a 11 e na Espanha a número 13 era usada apenas pelos goleiros da equipe.

Existe muita diferença no tipo de futebol jogado nos países que você atuou profissionalmente?

O estilo muda e muda muito. Acho que cada país tem a sua própria característica e a sua cultura. Por exemplo, no Uruguai é um futebol muito pegado, com muita raça e muita pancada. Na Europa é um jogo mais tático, você, às vezes, tem que deixar sua capacidade técnica um pouco de lado pensando na tática do time. Aqui no Brasil é totalmente diferente. É um futebol mais alegre, todo mundo feliz, sempre visando o gol do adversário e jogando pra frente. A maior diferença pra mim foi na Grécia. A cultura do futebol grego é de que cada bola dividida é uma guerra e que cada partida é um combate de vida ou morte. Não gosto de pensar no futebol como uma batalha, mas sim como algo alegre.

Foi difícil aliar os estudos à carreira profissional?

Um pouco. Quando fui negociado para o San Lorenzo, da Argentina, tive que dar um tempo nos estudos para poder me dedicar ao meu sonho que era ser jogador profissional. No Uruguai é mais simples se formar mesmo jogando futebol. É possível escolher que tipo de jornalismo você quer cursar; o político, o cultural e o esportivo e fazer apenas o curso que você decidir. Alguns professores abriam mão da minha presença em algumas aulas até porque sabiam que eu tinha as viagens, as concentrações e era complicado estar sempre presente.

Já pensou em exercer esse lado jornalista que você tem?

Sim, já pensei. Mas não quero ser o tipo do jornalista que fica falando que o jogador está mal porque saiu na noite ou brigou com o treinador. Gosto de falar de futebol, da tática, da qualidade do esporte e das situações de jogo. Ser comentarista esportivo é uma das opções que eu tenho para as atividades depois de me aposentar.

Gosta de assistir aos programas esportivos nos dias de folga? Procura assistir jogos para estudar os adversários?

Gosto muito, eu assisto à quase todos os programas. A minha profissão está relacionada com o futebol, então quanto mais conhecimentos de futebol eu tiver, melhor. Analiso os times, os goleiros adversários, a linha defensiva, ou seja, tudo que puder ajudar. Neste ano o Botafogo vai disputar a Copa Sul-Americana é preciso assistir a forma que times argentinos, uruguaios jogam para não sermos surpreendidos na hora.

Falando do Botafogo, a sua chegada ao Rio de Janeiro foi cercada de muita expectativa e muita festa, você esperava tudo aquilo? Foi a recepção mais calorosa que você já recebeu?

Fiquei surpreso com a forma que fui recebido. Cheguei ao Brasil, um país de muitos craques e num clube que tem vários grandes jogadores na sua história, e eu achei que fosse ser normal, mas não foi. Apesar disso, não foi a recepção mais calorosa que recebi. As duas mais incríveis foram em Israel e na Grécia. Nas duas ocasiões parecia que estava sendo jogado um clássico nos aeroportos locais, mais de três mil pessoas estavam lá pra me receber. Muito bacana.

Você sabe dizer o porquê de tanta sintonia entre você e a torcida do Botafogo?

Pra mim, tudo começou quando recebi a camisa do Zagallo, foi uma honra. Comecei com uma grande confiança. Esse foi o primeiro passo para essa identificação. Depois disso, foi a conquista do Carioca direto depois de três anos perdendo para o Flamengo. Fazer o gol do título contra o grande rival e, ainda por cima, de uma forma especial com a cavadinha. A partir daí fechou-se uma grande união: a torcida, o clube e eu.

Quero saber sobre a importância de ter marcado esse gol do título no Maracanã, um estádio que o seu país está completamente inserido na história graças, principalmente, ao Gigghia?

Pra mim foi um prazer. Em toda a minha carreira nunca tinha tido a oportunidade de jogar no Maracanã, nem pela Seleção. Ter a oportunidade de conquistar dois títulos jogando nesse estádio, um contra o Vasco e o outro contra o Flamengo, pra mim foi algo inesquecível. Sei da história da Copa de 50, vi os vídeos e tenho uma grande amizade com o Gigghia que colocou o Uruguai na história. Fico arrepiado de poder entrar no Maracanã e ficar na memória também.

Depois dessa derrota de 1950, Uruguai e Brasil ficaram ainda mais rivais, e você conseguiu fazer que torcedores do Botafogo torcessem pra Celeste como se fosse pelo time do coração. Como você recebeu essa notícia?

Depois que eu fiz o gol de pênalti contra o Flamengo e vi uma enorme bandeira do Uruguai na torcida do Botafogo fiquei muito emocionado, muito mesmo. Quando eu soube que os botafoguenses estavam torcendo por mim e pelo Uruguai fiquei muito feliz. É uma rivalidade muito grande e só tenho a agradecer a todos por isso.

Hector Scarone tem um gol a mais que você com a camisa do Uruguai, você ainda tem o objetivo de ultrapassá-lo e se tornar o maior artilheiro da história do futebol uruguaio?

Só falta um gol, né? Tá pertinho, mas ta demorando muito. O meu principal objetivo é ser o primeiro a passar o Scarone, que é o maior artilheiro uruguaio faz 70 anos. Eu quero ultrapassá-lo e ficar um pouquinho na ponta, mas eu sei que depois o Diego Forlan e o Luis Suarez vão passar o Scarone e me passar também, até porque são mais jovens que eu.

Dos seus 30 gols com a camisa do Uruguai, tem algum especial?

Sim, dois. O primeiro foi o gol da classificação pra Copa do Mundo contra a Costa Rica, no Estádio Centenário. O outro foi na própria Copa, nas quartas de final contra Gana, de cavadinha.

Falando em cavadinha, recentemente, no jogo entre Botafogo e Fluminense, você perdeu um pênalti usando esse recurso e na mesma partida teve a coragem de cobrar no mesmo estilo e fez. Não ficou preocupado com um possível novo insucesso?

Você quando vai para rua vai temendo que te aconteça algo ruim? Não, né? E eu sou a mesma coisa. Se eu tivesse medo, nem deveria me apresentar pra cobrar. Você tem que ser responsável pelos seus atos. Eu achava que a cavadinha era a melhor opção na primeira cobrança e a fiz. Pensava que era uma ótima escolha para o segundo pênalti devido o que ocorreu anteriormente fui lá fiz de novo. Entrei na história sendo o primeiro jogador a bater dois pênaltis com cavadinha, perdi um e fiz o outro.

Gostaria agora que você falasse sobre a importância do Sindicato dos Atletas na vida de um jogador de futebol profissional. E também quais são as principais diferenças do trabalho que é feito aqui no Brasil em relação aos outros países nesse sentido de amparo ao atleta?

Eu gosto muito de experimentar os sindicatos. No Uruguai e na Argentina se faz um trabalho muito interessante, mas gostei muito do que vi aqui no Rio em relação a isso. Aqui eu percebo que o jogador está muito bem respaldado. Em outros lugares do mundo o jogador quando machuca fica isolado, ninguém se preocupa com o período de recuperação dele. Os jogadores aqui têm a quem recorrer se houver qualquer tipo de problema envolvendo o atleta e o clube. Falta de pagamento, rescisão de contrato e tudo mais. O trabalho do Sindicato é bom, principalmente, para os atletas que não chegaram ao sucesso que estão lutando no dia-a-dia para ter uma carreira de sucesso. Nem todo jogador é Loco Abreu e recebe um bom salário. De 1000 jogadores, 100 ganham bem e os outros? Eles seguem a
luta para se tornar um grande profissional. O que eu puder fazer para ajudar o Sindicato eu irei fazer.

Já percebeu que o fim da carreira está se aproximando?

Já, já. Mas ainda acho que tenho condições de jogar mais um tempo. O corpo é que avisa quando está na hora de parar, e o meu corpo ainda está capaz de fazer o que é preciso para jogar em um bom nível. Eu ainda quero disputar a próxima Copa do Mundo, aqui no Brasil, jogar no Maracanã de novo. É um sonho que eu ainda tenho. Enquanto eu estiver em condições, vou correr atrás dele.

E o que você pretende fazer depois da aposentadoria? Já pensou nisso?

Eu pretendo ser técnico. Vou fazer os cursos para ser treinador de futebol. Não quero ficar afastado dos campos, quero aproveitar a minha experiência profissional e vou juntar todos os ensinamentos que tive com os principais treinadores da minha carreira para construir um estilo vencedor.
Publicada por Rui Moura em 08:39 0 comentários
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Etiquetas: memorial el loco

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