Do riso à vaia: Calaram o nosso amor (queremos time, urgentemente, diretoria)

17 abr

Peço um minuto de vocês para darem uma olhada no vídeo abaixo:

Lembram dele, né? Brasileirão 2007. Mesmo com a derrota para o São Paulo em pleno Maracanã, a torcida alvinegra cantou até o fim, apoiando o time até os últimos minutos, fato reconhecido na transmissão do Cleber Machado. Alguns jogos antes, eu lembro muito bem, a gente gritava “Não é mole, não, o Botafogo é melhor que a Seleção”.

E o resultado? Jogamos o mais belo futebol, fomos elogiados por 10 entre 10 comentaristas, resgatamos a mística da camisa alvinegra… e não ganhamos nada.

O Botafogo 2007 foi o Brasil 1982. Só que a nossa tragédia do Sarriá foi acontecer na Argentina, naquela vergonhosa derrota para o River Plate pela Sul-Americana. E, ao contrário dos canarinhos de 82, fomos nós que entregamos o resultado. Dali em diante foi quebrado o vínculo jogadores/torcida, que só tinha sido tão forte em 1995, quando da conquista do Brasileirão. Pior: sucessivos vexames, ou episódios que outros rotularam de vexames e nós tivemos que aceitar (sim, estou falando do “chororô” de 2008, uma demonstração de amor à camisa como raras vezes foi vista em um time de futebol profissional e que, pelo oportunismo do nosso maior adversário e pelos resultados subsequentes, acabou se voltando violentamente contra nós), não conseguiram restabelecer esse vínculo.

Até, claro, a conquista do Estadual do ano passado. Novamente faço a comparação com o Brasil: se o time de 2007 foi a Seleção de 1982, o Botafogo de 2010 foi o Brasil de 1994 – sem brilho, mas com muita raça, imensa vontade de ganhar. E deu certo: ao contrário do time envolvente do Cuca, tivemos o time eficiente do Joel. Fomos campeões e tiramos o nó da garganta. E foi de forma arrebatadora, de lavar a alma: fomos campeões ganhando de TODOS os rivais em jogos decisivos – semifinais e finais das duas taças, um feito raríssimo no campeonato carioca. Melhor ainda: fomos campeões humilhando (abrazo, Loco) o maior rival justo no que sempre foi o mais forte deles – a supremacia emocional na hora dos pênaltis. Melhor, impossível.

Sem ironias, sempre serei grato ao Joel por aquele título. Duvido que outro técnico, com tanto pouco tempo para trabalhar, tivesse conseguido a mesma façanha.

Mas, fome saciada, era preciso incrementar o cardápio para o Brasileirão. Foi quando percebemos que Joel não tinha a receita para nos agradar – pelo contrário, sua visão limitada foi minando de novo a nossa confiança. Ok, perdemos o Maicosuel e Jobson não voltou a ser o que tinha sido em 2009, quando ele e o Jefferson nos salvaram do rebaixamento, mas ficar jogando indefinidamente na retranca, à espera de uma bola salvadora, era muito pouco pra gente, logo a nossa torcida, que tinha visto o Botafogo dar um show de bola há 3 anos.

Então, aconteceu o pior: entramos numa rotina de aborrecimento e frustração. Assistir a um jogo do Botafogo deixou de ser um prazer.  Mesmo as vitórias, exceto duas ou três, não eram convincentes – ah, fomos o sexto lugar no Brasileirão… e daí? Quantas e quantas vezes nos irritamos ao entregar jogos em casa, nos últimos minutos, por um excessivo defensivismo?

Pior: nós, da torcida, nada podíamos fazer. Para a imprensa, Joel era genial; a diretoria pensava igualzinho, numa posição estranhamente subserviente. Nas coletivas, o  Natalino ficava tirando onda de “Rei do Rio”, como se fizesse um grande favor em treinar nosso time, especialmente depois que recusou a proposta dos urubus.

Só aí, depois de muuuuuuuuitas decepções, é que consolidamos a cultura da vaia. Era o último recurso disponível para chamar atenção e mostrar a nossa contrariedade.

As vaias foram decisivas para a saída do Joel, não tenho nenhuma dúvida.

Só que, nesse ano, virou o primeiro recurso.Estamos impacientes e, ouso dizer, neurastênicos. Dez minutos de jogo e João Filipe erra o passe? Vaia nele! Márcio Azevedo deixa o adversário escapar? Vaia nele! Ora, sejamos um pouco sensatos: com a contusão de Fábio Ferreira, há alguma opção melhor no banco do que o JFilipe? Será que queremos a volta do Marcio Rozario ao time titular? Era um jogo de oitavas da Copa do Brasil, o atalho para a Libertadores, contra um time da Série A, e bem treinado pelo Silas, não era contra Cabofriense ou River Plate de Sergipe. Era jogo para se apoiar do início ao fim – mas, não: o time arrancou empate e, mesmo assim, desceu vaiado para o vestiário no intervalo. Não seria mais eficiente apoiá-los ou mesmo ficar calado e, somente após a partida, detonar o grito “Queremos jogador”, esse sim um protesto certeiro porque é direcionado à diretoria?

Convenhamos que o nosso elenco não é nenhuma maravilha. Quase todas as apostas do “departamento de futebol” (como adora arrotar o presidente Assumpção, como se estivesse falando da gerência de recursos humanos de uma empresa multinacional) se mostraram frustrantes: Everton, JFilipe, Arevalo, Fabrício (ainda está no elenco?), … por enquanto, o único que parece com potencial de titular é o Lucas – mesmo assim, com deficiências na marcação.

Mas, se eles já são ruins, com os nervos destroçados pelas vaias ficarão ainda pior. E os adversários jogarão ainda mais à vontade, dentro da nossa casa.

Por isso, acho que cabe ao torcedor alvinegro, especialmente ao que pode ir ao Engenhão, uma reflexão nesse momento em que a vaga da Copa do Brasil praticamente foi para o brejo, idem o Carioca.

Estamos começando uma nova fase.

Temos um técnico novo, disposto a trabalhar  e colocar o time pra frente, como queríamos. Acho que ele merece uma trégua pra ter tranquilidade e tentar montar um time competitivo para o Brasileirão.

Vamos lembrar que, infelizmente, nossos cofres já devem estar vazios – não apareceu um grande patrocinador, como Neoquímica Genéricos, do ano passado.  Pior: na negociação com a Globo, o Botafogo ficou com menos dinheiro até do que o Fluminense. Foi tratado como time médio, não como time grande que é. E os patrocinadores devem querer impor o mesmo tratamento pra colocar seus nomes na camisa alvinegra. Pra piorar, o maior investimento dos últimos anos – a volta de Maicosuel – ficou no campo virtual e, por conta da contusão, o craque só é visto no site oficial do clube, visitando fábrica de Guaraviton, distribuindo brindes, etc.

O Botafogo passa por um momento muito delicado: uma profunda crise de confiança do time com a torcida, pelos motivos acima citados e que, como procurei mostrar, não se limitam às burradas do Joel (e foram muitas). E desconfio que a diretoria, tão preocupada com ações inexpressivas de marketing e projetos megalômanos, não tenha percebido o quão grave é essa crise.

A sucessão vertiginosa de frustrações causadas por fatores de origem tão diversa – beltramices, anapaulices, amarelice, cartolice, retranquice, alessandrice, joelsantanice, etc – nos últimos 3 anos teve um efeito devastador.

Calaram o nosso amor.

À diretoria, cabe perceber esse problema e combatê-lo não com bravatas nem ações marqueteiras: cabe ao sr.Maurício Assumpção descobrir formas de reforçar o time e oferecer condições plenas de trabalho ao Caio Júnior. Estou, nesse momento, pouco me lixando para o fato de estarmos na final da Copa Sub-15 de Futebol de Praia ou se o Pólo Aquático conquistou a Taça Coaracy Nunes no Cazaquistão. Quero todo o foco da diretoria no futebol profissional.

Mas também temos um papel a desempenhar nesse momento: cabe a nós, da torcida, fazer um esforço para recuperar ainda nas primeiras rodadas do Brasileirão o nosso amor, esse nosso amor que tanto nos inebria e nos faz abrir um sorriso ao ter a certeza que escolhemos o mais glorioso time do mundo, que somos guiados por uma estrela.

Pois tudo o que os adversários vão querer é jogar em campo neutro quando o Botafogo tiver o mando de campo – ou, pior, com a própria torcida alvinegra jogando contra os seus jogadores.

Temos que fazer isso pra que a gente não tenha que recuperar invocando Levir Culpi, Valdo, Túlio, Leandrão e outros heróis que nos tiraram da Série B.

A gente precisa voltar a ter orgulho de ver o Botafogo jogar.

A gente precisa voltar a sorrir.

Como a gente sorri ao ver um desconhecido usando uma camisa alvinegra na rua, ao ver um menino imitando o penteado do Loco Abreu, ao ver a modéstia do Jefferson ao receber a notícia que foi convocado para a Seleção Brasileira, ao ver um senhor de cabelos brancos contando lindas histórias de Nilton Santos e de Garrincha.

No Engenhão, a gente precisa voltar a gritar que a gente ama o Botafogo.

E mostrar que esse amor não é cego mas é incondicional, está muito acima de Alessandros, Joéis, João Filipes, Rozários ou Fahéis.

É amor à camisa, a mais bela camisa, a mais gloriosa camisa, a camisa do nosso time, dos nossos pais, dos nossos filhos, dos que por aqui já passaram e dos que ainda virão.

Esse amor ninguém pode calar.

Publicado em Botafogo 2011 do Blog FOGOETERNO.

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